quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Desastre Ecológico atinge o Campo Cheiroso, uma das relíquias ecológicas de Itacaré



 
Danos provocados por incêndio em formação vegetal raríssima precisam ser investigados, e avaliados.

* Os campos nativos são ecossistemas raros, quando associados ao bioma da Mata Atlântica. Suas maiores expressões são os campos sulinos, e os campos de altitude que ocorrem algumas vezes nas regiões serranas do sul e sudeste.

No final da década de 90, durante o processo de zoneamento ecológico da APA Costa de Serra Grande – Itacaré, um campo natural no Corredor Ecológico Esperança Conduru foi confundido com uma área degradada, pelo seu aspecto de área desmatada, e também, devido a existência de diversos plantios, principalmente de coco.
O equívoco foi corrigido, durante a revisão do zoneamento da APA Costa de Itacaré – Serra Grande, e o local, conhecido como Campo Cheiroso, localizado a cerca de 130 m de altitude e a uma distância em linha reta de aproximadamente 5 Km da linha da costa no município de Itacaré (14° 22’ 84’’ S e 39° 03’ 33 W’) foi reconhecido como um campo natural da Mata Atlântica, atraindo a atenção de botânicos como André Carvalho (já falecido), que o descreveu como um ecossistema sem similares, uma raridade ecológica.
Iniciou-se uma corrida contra o tempo para salvar o Campo Cheiroso, e o seu jardim de bromélias e orquídeas, algumas delas, endêmicas e raras. As queimadas, os plantios financiados pelo governo, e as construções irregulares foram denunciadas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Novos pesquisadores passaram a descrever esse ecossistema; o local entrou no roteiro do ecoturismo e dos observadores da natureza. O Campo Cheiroso passou a ser considerado um ambiente estratégico para a conservação, e da mais alta prioridade para a conservação da biodiversidade na APA Costa de Serra Grande – Itacaré, como pode ser observado nos documentos que seguem essa reportagem.
Mais de uma década se passou, mas o Campo Cheiroso continua vulnerável, e alvo da degradação ambiental. No último dia 20 de dezembro, um grande incêndio atingiu pode ter destruído mais de 90% de suas formações vegetais. O desastre, e combate ao fogo foi observado pelo engenheiro agrônomo Rones Flasgordes, que declarou-se horrorizado com o que presenciou. Rones, que pesquisa a restauração ambiental na APA, e participou ativamente da mobilização de combate ao fogo, mostrou-se bastante preocupado ao procurar nossa reportagem.

Diante da magnitude desse desastre ambiental, é preciso que as autoridades ambientais tomem as medidas cabíveis, apurando, mitigando os danos, e prevenindo a extinção do Campo Cheiroso, considerado “uma área relictual de extrema relevância biológica”. O desastre também serve para a reflexão de que a conservação ambiental no sul da Bahia deve sair do papel para a prática. A gestão ambiental, de fato, não depende apenas de leis, zoneamentos, ou pesquisas científicas; e sim da uma prática cotidiana de educação ambiental, fiscalização, monitoramento e prevenção de desastres ambientais.

As fotos que ilustram essa reportagem são do notável fotógrafo Fábio Coppola. Que elas sirvam para sensibilizar a sociedade no sentido de que temos a obrigação de, pelo menos, tentar salvar o Campo Cheiroso para as futuras gerações.
 Texto: Paulo Paiva e Marcos Pennha
 Fotos de Natureza em Campo Cheiroso: Fábio Coppola
  Fotos do Incêndio em Campo Cheiroso: Rones Flasgordes

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