quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

ARTIGO - Psicopatia e luta de classes

A luta de classes é um fato concreto, não foi inventada nem por Marx nem por ninguém. A luta de classes deriva da classificação. A classificação, por sua vez, é um fato orgânico fundamental que ocorre no seio da espécie. O homo se torna sapiens porque se humaniza, e se humaniza por que, organicamente, é capaz de produzir afeto. O afeto é a transição entre a animalidade irracional, a natureza orgânica em si, e a animação racional, base da natureza humana. Há uma variação do homo que é incapaz organicamente de produzir afeto. Há, portanto, um processo orgânico que provoca a variação psicopata no interior da espécie. É esta dualidade orgânica que se faz na própria continuidade reprodutiva da humanidade que gera o processo classificatório homens humanos versus homens desumanos que, por sua vez provocará a ruptura da comunidade em classes antagônicas: a classe dominante e exploradora e a classe oprimida e explorada. Desta forma o elemento gerador da classificação e, consequentemente, da luta de classes é o antagonismo orgânico inerente à espécie que confronta, de um lado, os seres humanos e, de outro lado, os psicopatas.
O capital não provoca anarquia e caos: ele é o próprio caos, a própria anarquia. Não é possível pensar o Capital ou qualquer sistema de classes a partir de uma concepção ordenada e ordenadora e, consequentemente, humana. Como podemos pensar o tigre se comportando como um ser humano? Como podemos conceber um homem incapaz de produzir afeto se comportando como, mais que isto, sendo um homem afetivo? O capital é a irracionalidade se movimentando, animada, por dentro da produção humana e do humano. É a reação irracional, animal, instintiva, contra qualquer procedimento humano que pratique a produção conversada, o trabalho humano. A comunidade é o movimento desenvolvido pela espécie para se ordenar no interior do caos universal e da fluência continua da totalidade. É, em essência, a própria natureza humana. Não há humano sem comunidade. O capital é uma Pandora que não só mantém a caixa de maldades e crueldades orgânicas permanentemente aberta como também as estimula e excita contra a ordem humana, para manter a ruptura na continuidade humanizadora e a continuidade da própria ruptura. O capital é a perpetuação do caos, é a ruptura contínua. Só há uma forma de superá-lo e emancipar a humanidade do seu poder destruidor: é submeter o caos animal, intrínseco a todo homem, à ordem humana, à comunidade. E isto acontecerá quando a espécie compreender que o humano e o desumano estão em sua constituição e que o humano só sobreviverá se dominar o desumano que, dominante, levará a espécie ao autoaniquilamento, á extinção.
A dificuldade de nós, seres humanos, nos livrarmos do sistema de classes está diretamente vinculada com a nossa dificuldade de lidar com a psicopatia, com o caos animal e a anarquia irracional que esta em nós mesmos, pois somos todos animais antes de sermos humanos. A nossa diferença com a porção desumana da espécie esta na sutileza da produção do afeto, o “detalhe” que determina tudo. Até a produção do afeto nós, e os psicopatas, andamos juntos, sem nos diferenciarmos. Foi quando os nossos antepassados inventaram a comunidade e passaram a produzir o humano que a diferença se fez e passou a dominar as relações entre os indivíduos sem que este se dessem conta da sua existência.
Tentamos conceber a psicopatia a partir da nossa ordem humana. É um tremendo desafio este de pensar o caos como uma ordem. Mas na nossa racionalidade intrinsecamente limitada à ordem, só podermos pensar o que nos é semelhante organicamente como se ele também nos fosse semelhante psíquica e humanamente, ou seja, de igual para igual. O esforço de Marx, neste sentido, foi hercúleo. Toda a sua teoria do comunismo científico, do materialismo dialético, da determinação das forças produtivas, foi desenvolvida nesta busca de ordenação do caoticamente cruel, do intrinsecamente mau, para que a ordem humana, a comunidade, conseguisse criar um procedimento generalizado para sua contenção e neutralização. Sabemos identificar e, até certo ponto, estamos desenvolvendo métodos de cuidar e tratar a demência, a esquizofrenia, a psicose, a neurose. Mas não sabemos lidar com a psicopatia. Não sabemos como identifica-la e muito menos como neutraliza-la. Lidamos com ela de igual para igual e, por isto, sempre perdemos. O psicopata não é igual ao ser humano. É sua antítese. Não foi por mera casualidade que o pensamento demorou tanto para se debruçar sobre a psique humana. É ali que se dá a gênese da luta de classes; é ali que está a força da classe dominante de todos os sistemas de classe. É ali que mora o maior perigo, a maior ameaça a classe de psicopatas que se assenhorou, há dez mil anos, dos rumos da humanidade. É ali que ela guarda seu segredo mais íntimo, sua razão de ser, que nunca poderá ser desvendado pela espécie. Não é a toa que grande parte da produção teórica sobre a psique, e principalmente a psicanalise, passa ao largo da questão da psicopatia, evitando-a como o diabo evita a cruz. Mais que isto, esta produção passa a exaltar a condição psicopata, a animalidade como valor supremo da espécie e passa a apontar a humanização como um “mal estar”, um contrassenso que agride a ordem natural das coisas. Hoje se fala e se debate, marginalmente, na psiquiatria acerca da psicopatia como um distúrbio psíquico grave, como uma patologia.
Alguns estudos já tratam a psicopatia como uma disfunção orgânica do lobo frontal do cérebro. Contudo estes estudos permanecem circunscritos a pesquisas realizadas junto à presos pobre sentenciados e encarcerados. Ou seja, se limita aos psicopatas que “não deram certo”, os que são totalmente insignificantes para o sistema de classes. Será que veremos o dia em que as pesquisas sobre a psicopatia serão feitas com os casos que “deram certo”, com os psicopatas de sucesso, de prestígio, de classe e de “elite”?
Será que a espécie alcançará o dia em que uma ressonância magnética ou uma tomografia colorida bastará para identificar um psicopata e encaminha-lo para o tratamento adequado? Quando será que um simples atestado médico impedirá o exercício de atividades humanas para incapacitados ou deficientes afetivos, gente do tipo Delfim Neto, Maluf, FHC, Obama, François Hollande, David Cameron, Angela Merkel, Silvio Berlusconni do mesmo modo que um atestado oftalmológico pode impedir um deficiente visual de exercer a atividade de piloto de aviação? Quando eles deixarão de ser heróis e modelos de sucesso para serem tratados como o que realmente são: anomalias desumanas?
São Paulo, fevereiro de 2014
H. Armeiro

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