terça-feira, 25 de março de 2014

Piadas e difamações em redes sociais com anonimato garantido

As novas redes prosperam ao permitir que qualquer um publique mensagens anônimas. As vantagens e riscos que elas oferecem

O que você faria se pudesse falar publicamente o que quisesse – sobre si ou sobre terceiros –, sem vergonha nem constrangimento, protegido pelo anonimato? Parece tentador? Essa é a atração exercida por duas novas redes sociais. Elas prometem aos usuários a oportunidade de teclar o que desejarem, sem revelar a identidade, para a alegria de muitos – e a preocupação dos difamados. Trata-se da Whisper e da Secret.
Usar as duas novas redes é mais fácil que passar um trote telefônico. O Whisper permite enviar mensagens curtas a leitores anônimos. É a única das redes secretas disponível no Brasil. Para entrar, basta criar um código de acesso, sem registro de e-mail, nome de usuário nem telefone. A rede cria um apelido para você ao acaso. Navegando, é possível ler segredos em textos curtos e ilustrados por imagens. É possível comentar postagens e receber mensagens privadas. O Whisper afirma que sua página registrou 3,5 bilhões de visualizações em fevereiro, a maioria de jovens entre 18 e 24 anos. Eles gastam, em média, 25 minutos ali, mesmo tempo que no Facebook. O Whisper também recebeu um aporte de US$ 21 milhões (R$ 49,5 milhões), arrecadados graças a uma iniciativa da Sequoia Capital, uma empresa de capital de risco, no fim do ano passado.
A rede Secret foi criada pelo americano David Byttow, ex-Google. Ele diz que gostaria que seus amigos contassem francamente o que pensam, sem acanhamento. Na rede que criou, você lê mensagens escritas ou retransmitidas por quem está em sua agenda. Isso levanta uma questão mais incômoda: quem próximo a mim ou do meu círculo de amigos escreveu isso – e sobre mim? Embora o Secret (fazendo jus ao nome) não divulgue número de usuários nem visitação, a rede é considerada a nova onda nos Estados Unidos.
Essas redes anônimas são usadas com três propósitos básicos. Os dois primeiros parecem ser mais inofensivos. Um deles é o simples desabafo. Nos cochichos publicados no Whisper, é comum ver dramas como alguém que não avisara à noiva de seu irmão que ele morrera no Afeganistão – e não sabia como fazê-lo. Ou manifestações de parentes das vítimas do voo que partiu da Malásia para a China no dia 7 de março. Numa mensagem publicada em inglês, próxima do local onde eu estava, em São Paulo, alguém se perguntava: “Sou a única que não quer se matar aqui?”. Um segundo papel assumido pelas redes anônimas é ser canal para expressão de comportamentos socialmente discriminados. Esse bom uso da rede pode também ter espaço no Brasil. “É interessante olhar que algumas pessoas buscam anonimato para desabafar e encontrar apoio, e muitas não dão nomes a suas vítimas, apenas contam fatos”, diz a psicóloga Luciana Ruffo, do núcleo de pesquisas da psicologia em informática da PUC de São Paulo.
O terceiro grande uso das redes anônimas é mais preocupante. Aí entram mensagens de denúncia contra empresas ou pessoas. Em princípio, certas informações, se divulgadas com responsabilidade e checadas por terceiros, podem ser úteis. O Secret diz ter visto mais mensagens positivas que destrutivas. “Queremos que as pessoas explorem os limites, mas não cruzem a linha”, afirma Byttow.
Mas há abusos. Em fevereiro, a atriz americana Gwyneth Paltrow foi acusada por um anônimo de trair seu marido, o cantor Chris Martin. A afirmação ganhou repercussão em outra rede, o Twitter. Rendeu publicidade e um desmentido oficial do porta-voz de Gwyneth. Do Secret, surgiu um boato sobre a venda iminente da empresa Evernote, que faz aplicativos de bloco de notas para celulares, tablets e computadores. O rumor foi negado pela companhia.
Com um histórico desses, a preocupação com a veracidade das informações publicadas anonimamente é justificada. Escondido por um nome falso, qualquer um pode escrever absurdos sobre outra pessoa ou instituição. A rede Whisper afirma estar atenta. “Montamos um grupo para descobrir essas histórias e investigar mais”, diz Neetzan Zimmerman, editor-chefe da Whisper e ex-editor do Gawker, um dos maiores blogs de fofoca dos EUA. Essa verificação pode até evitar calúnias contra empresas ou celebridades. Mas o sistema não tem a capacidade de proteger cidadãos comuns de denúncias injustas.
Com tamanho potencial destrutivo, até que ponto a sociedade ganha e perde com um canal de comunicação anônima? As leis brasileiras garantem o direito de liberdade de expressão. Mas é proibido ofender ou difamar terceiros e também se ocultar sob o anonimato – exceto por canais reservados, como disque-denúncia. “No longo prazo, o anonimato é quase um câncer social”, diz a advogada Patrícia Peck, de São Paulo. “Ele estimula as pessoas a falar qualquer coisa, mesmo sem certeza ou fundamento, achando que não há consequências.” Só que elas existem. A rede Secret mantém dados de celular e e-mail do usuário. No Whisper, é possível tecnicamente rastrear alguém pelos dados do acesso. Se uma vítima de um agressor anônimo recorrer à Justiça, as redes poderão torná-lo público.
Outras tentativas de explorar o anonimato na internet não terminaram bem. O site PostSecret começou, em 2007, a publicar cartões-postais com mensagens sem identificação. Seu aplicativo para iPhone, lançado em 2011, recebeu mais de 2 milhões de publicações, incluindo textos com ofensas, ameaças e abusos. Os moderadores voluntários não conseguiram filtrar as mensagens, mesmo trabalhando 24 horas por dia. O criador da rede, o americano Frank Warren, foi contatado pela Apple e pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. O aplicativo acabou retirado da loja quatro meses depois.
Fonte: Vinicius Gorczeski - http://epoca.globo.com

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